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Patrícia Furtado de Mendonça é a pesquisadora e co-criadora da 1ª edição Moon and Sun: ‘Back to the Origins’ – que irá decorrer de 18 de Maio a 2 de Junho 2019 na Serra da Arrábida e Serra de Sintra, Portugal – e é um dos membros mais recentes da nossa equipa Oceans and Flow.

Hoje partilho o seu testemunho sobre a água e a relação que desenvolve à décadas com este elemento:

 

Água é vida. Quando buscamos vida em outro planeta, buscamos água. Qualquer semente ou embrião só começa sua vida na água. Ela é o meio pelo qual a natureza existe e se sustenta, conectando todos os sistemas vivos e ligando o presente ao passado, e o passado ao futuro. Percebo uma espécie de fio de Ariadne que parte invisivelmente do meu umbigo e me liga à primeira célula viva do oceano primordial, atravessando as espirais do tempo e do espaço e me conectando ao início de tudo. E, na direção contrária, nesta travessia de trás pra frente, este fio acumula uma série de registros de vida que passam então a me pertencer. São essas águas do passado que chegam até mim, preenchem minhas células e se constituem como memória, deixam rastros indeléveis na minha psique, na zona mais profunda e obscura do meu inconsciente, e conectam a minha história à história de vocês, e também à história de toda a humanidade. Temos um passado comum, e é esse oceano de memórias que nos liga inexoravelmente uns aos outros. As águas que me atravessam e habitam são as mesmas águas que atravessam e habitam cada um de vocês, são as águas do início e do fim de tudo, as águas do nascimento e da morte. O que pertence unicamente à nossa individualidade é apenas uma gota deste imenso oceano.

Quando uma mulher gera e pari um filho, ela permite que o mar das origens transborde em onda sobre a terra para irrigar um novo mundo. A continuidade da vida é esse oceano primordial que não para de jorrar em cada um de nós.

Nossos corpos são literalmente inundados: um feto humano de três meses possui 94% de água; um recém-nascido, 75%; um adulto, 60/65%; um idoso, 40/50%. Em nosso percurso vital vamos perdendo as águas do corpo até secarmos definitivamente e virarmos, simplesmente, pó.

O tema da água, do oceano, não se esgotará nunca. A nós, curiosos, cabe indagar e mergulhar fundo até onde a escuridão inalcançável de seus abismos permite”.

É assim que concluo minha palestra Um Oceano de Memórias: Águas que nos Atravessam e Habitam, que, de certa forma, resume os estudos que fiz no início do ano 2000, na Itália, quando formalmente dei início às minhas pesquisas sobre nossas Memórias Marinhas e sobre as Memórias das Águas.

Quando Violeta Lapa pediu que eu preparasse um texto para introduzir nossas jornadas Moon and Sun: Back to the Origins, que acontecerão entre maio e junho de 2019, entre a Serra da Arrábida e Sintra, comecei a escrever muitas e muitas coisas. Mas, ao final, resolvi – eu também – voltar às minhas origens. Então decidi compartilhar esse antigo texto como premissa ao que vem agora, no qual reforço alguns desses elementos que permearão nossas vivências, mas que, independentemente delas, fazem parte de nossa vida como um todo.

Para vir ao mundo, todo ser humano habita o útero de uma mulher. Nascemos como indivíduos nas águas do ventre de nossa mãe. Por isso, o elemento feminino ocupa um lugar tão importante para todos nós. A Água é a Grande Mãe, a nutrição primeira. Ela sempre chega antes de nós, nos acolhe. Permitiu o desenvolvimento embrionário e fetal da célula-ovo que um dia fomos. Abriu caminho para nosso nascimento ao mundo aéreo e terrestre, quando o saco amniótico de nossa mãe rompeu, derramou o líquido que antes nos protegia e avisou ao mundo que íamos chegar.

A Água é criatura, organismo vivo. É o elemento mais sagrado que existe. É muito mais que o recurso que passou a ser utilizado e vendido depois que o ser humano se distanciou de sua própria Natureza. Sem perceber, fomos perdendo nossa conexão profunda com a água e deixando de ver sua conexão com tudo o que é vivo e pulsante em nosso planeta. Ela não está presente apenas nos inúmeros corpos de água selvagem que enxergamos ao redor. Tampouco é, somente, o líquido domesticado que alcança as torneiras de nossas casas ou é usado na produção de tudo o que consumimos. Invisível aos nossos olhos, também circula debaixo da terra, no corpo de plantas e animais, nos ares do céu. Flui ritmicamente nos muitos rios e mares que nos navegam, penetra nossas florestas internas e extravasa pelas diversas frestas da nossa pele, no arder de nossas emoções profundas ou no renovar de nosso ciclo vital. 

Temos que agradecer e nos deixar inspirar por religiões, culturas e tradições de comunidades e povos que, apesar dos novos tempos, conseguiram manter seu vínculo ancestral e espiritual com o elemento que é nosso próprio fundamento. Precisamos resgatar esse sentimento com urgência. A mesma água que conecta tudo e todos também tem o poder de nos religar ao Mistério. É um portal de acesso a dimensões que nos ultrapassam. É a guardiã de todas as memórias, um potente veículo de reconexão com todas as nossas origens.

Em nosso mundo o tempo voa. Tudo urge. Somos constantemente arrancados de nós mesmos. Sem raízes em nossas próprias águas, não voltamos o olhar para as nascentes do passado. É hora de nos reconectarmos profundamente com nossas origens aquáticas – das mais longínquas às mais recentes – e com as águas dos demais ecossistemas que integramos. As águas estão morrendo e precisam de nós. É hora de nos abrirmos vertiginosamente a uma nova percepção e a uma nova cultura da água. É hora de proteger, cuidar, curar, reverenciar e honrar a vida do elemento sem o qual a Vida não existe. E é no contato direto com todas essas águas que nossa consciência, renovada, se transforma em ação.

Sim, de volta às origens. Para fazermos a diferença no futuro dos que virão depois de nós.”

por Patrícia Furtado

       Fotografia de Tatiana Guinle

 

Em breve teremos novidades inspiradoras sobre a nova experiência Moon and Sun: ‘Back to the Origins’.

Despeço-me desde o Brasil, em plena viagem de imersão ao mundo aquático. Até já 🙂
Violeta Lapa

 

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